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Meu aluno sentiu dor durante ou depois da aula de Pilates, e agora?

25 de set.
7 min de leitura

Por Janaína Cintas



Como interpretar a resposta ao exercício sem transformar a dor em medo e nem ignorá-la. Quando o aluno sente dor durante o exercício significa que errei?


Essa é uma das situações que mais gera insegurança no profissional de Pilates.

Você escolhe um exercício, acompanha a execução e, de repente, o aluno fala:

“Estou sentindo minha lombar.”

Ou termina a aula e manda uma mensagem:

“Depois da aula minha dor aumentou.”

E então surge a dúvida:

Devo retirar esse exercício?Devo interromper a aula?Será que causei uma lesão?

A resposta não está simplesmente em “pode” ou “não pode”.


Na lombalgia, a presença de dor durante ou após uma atividade precisa ser interpretada dentro do contexto clínico daquele aluno.

Isso é especialmente importante porque, como vimos no primeiro material desta série, dor não é sinônimo obrigatório de lesão tecidual. A experiência dolorosa pode envolver diferentes mecanismos — nociceptivo, neuropático e nociplástico — e esses mecanismos podem influenciar a forma como o indivíduo responde ao movimento.


Portanto, a primeira pergunta não deveria ser:

“Qual exercício provocou a dor?”

Mas:

“Como esse aluno respondeu a esse estímulo?”

Essa mudança de pergunta modifica completamente o raciocínio clínico.


DOR NÃO É UM INTERRUPTOR DE “SIM” OU “NÃO”


A literatura atual mostra que exercícios estruturados podem produzir benefícios para dor e função em pessoas com lombalgia, mas também podem ocorrer respostas transitórias, como aumento temporário da dor ou desconforto. Uma revisão sistemática utilizada para subsidiar a diretriz da OMS encontrou redução de dor e limitações funcionais com programas estruturados de exercício, enquanto eventos adversos menores e aumento temporário da dor também foram relatados em alguns estudos.  

Isso significa que:

sentir algum sintoma durante uma sessão não permite, isoladamente, concluir que houve dano.

Mas também não significa que devemos ignorar a resposta.


O profissional precisa interpretar.


O QUE A DOR ESTÁ ME DIZENDO?


Quando o aluno relata dor durante um exercício, existem algumas perguntas que podem transformar uma situação de insegurança em informação clínica.


1. QUANDO A DOR APARECEU?

Foi:

  • imediatamente no início do movimento?

  • depois de algumas repetições?

  • apenas próximo do final da amplitude?

  • depois de determinada carga?

  • após fadiga?

O momento em que o sintoma aparece pode ajudar a identificar qual variável do exercício está sendo mal tolerada naquele momento.

2. ONDE A DOR APARECEU?

Observe se é:

Localizada

ou

irradiada.

Pergunte também sobre:

  • formigamento;

  • dormência;

  • sensação de choque;

  • queimação;

  • alteração de força;

  • mudança da distribuição habitual dos sintomas.

Isso é especialmente relevante porque uma resposta compatível com comprometimento neural precisa ser diferenciada de um desconforto musculoesquelético local.


3. O QUE ACONTECE QUANDO O MOVIMENTO PARA?

Essa é uma pergunta simples, mas extremamente útil:

“Quando você para o movimento, o que acontece com a dor?”

Ela desaparece?

Diminui?

Permanece?

Continua aumentando?

A resposta ajuda a entender o comportamento do sintoma diante daquele estímulo.


4. E DEPOIS DA AULA?

Aqui está um erro comum:

avaliar somente os cinco segundos em que o aluno realizou o exercício.

A resposta ao exercício pode ser observada em diferentes momentos:

Antes → durante → imediatamente depois → horas depois → dia seguinte.

Estudos recentes mostram que pessoas com lombalgia podem apresentar respostas diferentes ao exercício, inclusive redução aguda da dor após determinadas sessões. Um estudo publicado em 2025 observou redução da intensidade da dor após as sessões durante um programa de exercício de 14 semanas, demonstrando que a resposta à atividade não é necessariamente uniforme entre indivíduos ou ao longo do tempo.  

Por isso, não avalie apenas o exercício. Avalie a resposta do aluno ao exercício.


A DOR AUMENTOU. PRECISO PARAR O PILATES?

Essa é uma das maiores armadilhas na prática clínica.

Quando a dor aumenta, existem dois extremos.

❌ EXTREMO 1

“Sentiu dor? Então esse exercício está proibido.”

❌ EXTREMO 2

“Dor não significa nada. Pode continuar normalmente.”

Nenhum dos dois raciocínios é suficiente.

O que precisamos fazer é investigar a resposta e ajustar a dose do estímulo.


EXERCÍCIO NÃO É APENAS O MOVIMENTO


Quando você prescreve um exercício, está prescrevendo uma combinação de variáveis:

AMPlITUDE

Quanto movimento?

CARGA

Qual resistência?

VOLUME

Quantas repetições e séries?

VELOCIDADE

Com que velocidade?

FREQUÊNCIA

Quantas vezes por semana?

COMPLEXIDADE

Qual o nível de dificuldade?

FADIGA

Em que momento da sessão o exercício está sendo realizado?


Portanto, quando determinado exercício provoca sintomas, talvez o problema não seja necessariamente o exercício em si.

Pode ser a dose daquele estímulo naquele momento.

Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2024 investigou modalidade e dose de exercício para redução da dor em adultos com lombalgia crônica, reforçando a importância de considerar a relação entre exercício e dose na prescrição.  


EXEMPLO CLÍNICO

Imagine uma aluna que sente dor ao realizar determinado movimento de flexão do tronco.

Você poderia simplesmente dizer:

“Você não pode fazer flexão.”

Mas essa não precisa ser a única opção.

Talvez seja possível modificar:

Amplitude ↓

Resistência ↓

Número de repetições ↓

Velocidade ↓

Complexidade ↓

E então observar novamente.

O objetivo não é fugir permanentemente do movimento.

O objetivo é encontrar uma dose de movimento que o aluno consiga tolerar e, progressivamente, ampliar sua capacidade.


E SE A DOR APARECER DEPOIS DA AULA?

Agora pense em outra situação.

A aula terminou bem.

O aluno saiu satisfeito.

Mas algumas horas depois manda:

“Minha lombar ficou dolorida depois da aula.”

O que fazer?

Primeiro:

não tire conclusões precipitadas.

Precisamos investigar.

PERGUNTE:

1. A dor é diferente da dor habitual?

Mudou a localização?

Mudou a qualidade?

Apareceram novos sintomas?


2. Houve alteração funcional?

O aluno consegue:

  • caminhar?

  • sentar?

  • levantar?

  • dormir?

  • trabalhar?

  • realizar suas atividades habituais?

A intensidade da dor é apenas uma parte da história.

Função também precisa ser monitorada.


3. Quanto tempo durou a piora?

Uma exacerbação transitória não necessariamente significa que houve uma piora estrutural ou que aquele exercício deve ser definitivamente excluído.

Uma pesquisa publicada em 2025 analisou atividades físicas e exacerbações de lombalgia e encontrou associação entre algumas atividades e aumento transitório do risco de flare, mas não encontrou associação significativa dessas atividades com incapacidade relacionada à lombalgia em um ano de acompanhamento.  

Esse achado é importante para o profissional do movimento:

uma resposta de curto prazo não deve ser automaticamente interpretada como previsão de piora de longo prazo.

Mas ela merece ser considerada na próxima sessão.


E O QUE EU FAÇO NA PRÓXIMA AULA?


Não necessariamente retiro tudo.

Eu reavalio.

Sessão anterior

↓

Resposta do aluno

↓

Hipótese

↓

Ajuste da dose

↓

Nova exposição

↓

Nova resposta

Esse é o raciocínio clínico.


QUANDO MODIFICAR E QUANDO ENCAMINHAR?

O profissional de Pilates não precisa transformar cada episódio de dor em um diagnóstico.

Mas precisa saber reconhecer quando a resposta foge do esperado e necessita de investigação.


MODIFIQUE O ESTÍMULO QUANDO:

  • o exercício é tolerado parcialmente;

  • existe uma resposta previsível e manejável;

  • a alteração da amplitude ou carga melhora a tolerância;

  • não aparecem novos sinais neurológicos;

  • a função permanece preservada;

  • o aluno consegue continuar participando com segurança.


Nesse cenário, podemos pensar em:

REGREDIR → ADAPTAR → MONITORAR → PROGREDIR

PENSE EM ENCAMINHAMENTO/REAVALIAÇÃO QUANDO:

houver sintomas novos ou progressivos que levantem suspeita de comprometimento neurológico ou de uma condição que necessite investigação médica/fisioterapêutica específica.


Especialmente diante de:

  • perda progressiva de força;

  • alterações neurológicas relevantes;

  • sintomas novos e importantes;

  • alterações sistêmicas;

  • mudança importante e inexplicada do quadro;

  • sinais de alerta identificados na avaliação.


O raciocínio clínico também inclui saber quando NÃO continuar sozinho.


A GRANDE VIRADA NO SEU RACIOCÍNIO


Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Este exercício causa dor?”

Mas:

“Qual é a resposta deste aluno a este exercício, nesta dose, neste momento?”

Porque duas pessoas podem realizar o mesmo exercício e apresentar respostas completamente diferentes.

E a evidência atual reforça justamente a necessidade de individualização. Uma revisão abrangente publicada em 2025, reunindo 70 revisões sistemáticas, encontrou benefícios pequenos a moderados do exercício e da atividade física para dor e incapacidade na lombalgia, com diferentes modalidades apresentando resultados favoráveis em determinados desfechos; ao mesmo tempo, eventos adversos menores, como dor transitória após o exercício, foram relatados.

Não existe apenas “o exercício certo”.

Existe:

o exercício certo + a dose certa + para aquele aluno + naquele momento.


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Você vai perceber que, para trabalhar com o aluno com dor lombar, não basta saber executar o exercício. É preciso saber interpretar a resposta.


“A dor não deve ser ignorada. Mas também não deve ser interpretada automaticamente como sinal de dano. Ela é uma informação — e o profissional precisa saber o que fazer com ela.”



REFERÊNCIAS CIENTÍFICAS

  • Verville L, et al. Benefits and Harms of Structured Exercise Programs for Chronic Primary Low Back Pain in Adults. Journal of Occupational Rehabilitation. 2023.  

  • Liang Z, et al. The Best Exercise Modality and Dose for Reducing Pain in Adults With Low Back Pain: A Systematic Review With Model-Based Bayesian Network Meta-analysis. J Orthop Sports Phys Ther. 2024;54(5):315-327.  

  • IJzelenberg W, et al. Exercise Therapy for Treatment of Acute Non-specific Low Back Pain: A Cochrane Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Controlled Trials. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation. 2024;105(8):1571-1584.  

  • de Roode A, et al. The impact of contextual effects in exercise therapy for low back pain: a systematic review and meta-analysis. BMC Medicine. 2024;22:484.  

  • Suri P, et al. Transient and Long-Term Risks of Common Physical Activities in People With Low Back Pain. JAMA Network Open. 2025.  

  • Benefits and harms of exercise therapy and physical activity for low back pain: an umbrella review. Journal of Sport and Health Science. 2025;14:101038.  

  • Unraveling the pain trajectory in chronic low back pain patients during a physical exercise training program. 2025.  


 
 
 

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