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Pilates e Assoalho Pélvico: o que todo profissional do movimento precisa saber

Por Janaína Cintas



Respiração, pressão intra-abdominal, Powerhouse e continência: entenda o que a ciência realmente diz sobre essa relação


Quando falamos em Powerhouse no Pilates, é comum pensarmos imediatamente em transverso do abdome, multífidos, diafragma e músculos do assoalho pélvico.

Mas será que simplesmente praticar Pilates é suficiente para fortalecer o assoalho pélvico?

A resposta científica é: não necessariamente.

E compreender essa diferença é fundamental para fisioterapeutas, profissionais de Educação Física e instrutores de Pilates que trabalham com mulheres, idosos, gestantes, puérperas ou pessoas com disfunções do complexo lombopélvico.

O assoalho pélvico não deve ser entendido como um músculo isolado que precisa simplesmente “contrair mais”. Ele participa de um complexo sistema de continência, suporte dos órgãos pélvicos, função sexual e modulação das pressões intra-abdominais, além de atuar de forma integrada com a parede abdominal, o diafragma respiratório e outras estruturas do tronco.

É justamente nessa integração que o Pilates se torna extremamente interessante.

Mas precisamos compreender seus limites.


O que é o assoalho pélvico?


O assoalho pélvico é um complexo musculofascial que encerra inferiormente a cavidade abdominopélvica.

Entre seus componentes musculares estão estruturas do levantador do ânus, incluindo puborretal, pubococcígeo e iliococcígeo, além do músculo coccígeo e estruturas musculares do períneo.

Esses músculos não têm apenas uma função.

Participam de:

  • suporte dos órgãos pélvicos;

  • continência urinária e fecal;

  • função sexual;

  • estabilidade e controle da região abdominopélvica;

  • resposta às variações de pressão intra-abdominal;

  • mecanismos relacionados à micção e evacuação;

  • gestação e parto.

Portanto, falar em assoalho pélvico significa falar de um sistema dinâmico, tridimensional e dependente de coordenação neuromuscular.


O assoalho pélvico não precisa apenas de força


Esse conceito é fundamental.

Durante muito tempo, a abordagem do assoalho pélvico ficou excessivamente associada à ideia:

“Se existe disfunção, precisamos fortalecer.”

Hoje sabemos que a função é muito mais complexa.

Um assoalho pélvico funcional precisa ser capaz de:

contrair, sustentar, relaxar, responder rapidamente e coordenar sua atividade com as demandas respiratórias e mecânicas.


Ou seja, precisamos avaliar:

  • força;

  • endurance;

  • coordenação;

  • capacidade de relaxamento;

  • resposta antecipatória;

  • controle motor;

  • sintomatologia;

  • capacidade de administrar aumentos da pressão intra-abdominal.

Uma musculatura com aumento de tensão ou dificuldade de relaxamento não necessariamente se beneficia de simplesmente receber mais comandos de contração.

Mais contração não significa automaticamente mais função.


Pressão intra-abdominal: por que o profissional de Pilates precisa entender esse conceito?


Durante diversas atividades — levantar um peso, tossir, espirrar, correr, saltar, mudar de posição ou realizar determinados exercícios — ocorre alteração da pressão intra-abdominal (PIA).

Isso não é necessariamente ruim.

A pressão intra-abdominal faz parte da mecânica normal do tronco.

O problema clínico não é simplesmente produzir pressão, mas compreender como o organismo administra essa pressão diante da capacidade dos tecidos e da tarefa realizada.

Diafragma respiratório, parede abdominal e assoalho pélvico participam desse sistema.

Por isso, no Pilates, não deveríamos ensinar apenas:

“Contraia o abdome.”

Precisamos observar como o indivíduo organiza:

respiração + parede abdominal + caixa torácica + coluna + pelve + assoalho pélvico + tarefa motora.

Esse raciocínio muda completamente a prescrição.


Respiração e assoalho pélvico: existe uma relação?


Sim.

O diafragma respiratório e o assoalho pélvico apresentam uma relação biomecânica importante durante o ciclo respiratório.

De maneira simplificada, durante a inspiração, a descida do diafragma modifica as pressões internas e o assoalho pélvico precisa acomodar essa variação.

Durante a expiração, ocorre reorganização do sistema, podendo haver participação sinérgica da musculatura abdominal e dos músculos do assoalho pélvico dependendo da tarefa.

Isso ajuda a explicar por que respiração e controle do tronco não deveriam ser estudados separadamente do assoalho pélvico.

E aqui encontramos uma conexão muito interessante com o Pilates.


Onde o Pilates entra nessa história?


O Pilates trabalha constantemente com elementos como:

  • controle respiratório;

  • posicionamento da pelve e da caixa torácica;

  • controle do tronco;

  • mobilidade;

  • força;

  • coordenação;

  • consciência corporal;

  • diferentes posições contra e a favor da gravidade;

  • progressão de resistência;

  • controle durante tarefas que modificam a pressão intra-abdominal.


Por isso, o método pode oferecer um ambiente extremamente interessante para integrar o assoalho pélvico à função global do movimento.

Mas existe uma diferença importante entre dizer isso e afirmar que:

“Pilates fortalece o assoalho pélvico.”

Essa segunda afirmação exige muito mais cuidado.


Pilates fortalece o assoalho pélvico?


A evidência disponível não permite afirmar que o Pilates convencional, realizado isoladamente, seja suficiente para aumentar a força dos músculos do assoalho pélvico.

Uma revisão sistemática com meta-análise que investigou especificamente o Pilates e a função dos músculos do assoalho pélvico em mulheres saudáveis não encontrou diferença significativa na função muscular avaliada por perineometria.

Outra revisão sistemática avaliando exercícios não específicos concluiu que Pilates, exercícios hipopressivos e outros métodos realizados isoladamente não demonstraram aumento consistente da força do assoalho pélvico quando comparados ao treinamento específico dessa musculatura.

Isso nos leva a uma conclusão clínica muito importante:

Pilates não deve ser vendido como substituto automático do treinamento dos músculos do assoalho pélvico.

O Treinamento dos Músculos do Assoalho Pélvico (TMAP/PFMT) continua sendo uma das principais estratégias conservadoras para mulheres com incontinência urinária.

Mas isso não significa que Pilates e assoalho pélvico não tenham relação.

Muito pelo contrário.


Pilates + treinamento específico: uma combinação clinicamente interessante


Um ensaio clínico randomizado publicado em 2024 comparou Pilates e treinamento dos músculos do assoalho pélvico em mulheres pós-menopáusicas com incontinência urinária.

Os resultados sugerem que ambas as intervenções podem produzir benefícios em determinados desfechos, embora o treinamento específico continue tendo papel central na abordagem da função dos músculos do assoalho pélvico.

Esse dado reforça uma mudança importante de raciocínio.

Em vez de perguntar:

“Pilates fortalece o períneo?”

Talvez a pergunta clinicamente mais interessante seja:

“Como posso integrar adequadamente a função do assoalho pélvico aos exercícios de Pilates?”

Essa é uma pergunta muito mais sofisticada.


O Powerhouse precisa ser reinterpretado


No Pilates, tradicionalmente utilizamos o conceito de Powerhouse ou centro de força.

Entretanto, do ponto de vista contemporâneo, precisamos evitar transformar esse conceito em uma contração rígida e permanente de todas as estruturas do centro corporal.

Controle motor eficiente não significa:

contrair tudo, o tempo todo e com a maior intensidade possível.

O sistema precisa ser capaz de modular sua atividade de acordo com a tarefa.

Isso inclui saber produzir força e também relaxar.

Imagine uma aluna que apresenta:

  • urgência urinária;

  • dor pélvica;

  • dificuldade de relaxamento;

  • constipação;

  • dor durante relação sexual;

  • aumento de tensão dos músculos do assoalho pélvico.

Orientá-la indiscriminadamente a “contrair o períneo durante todos os exercícios” pode não ser uma estratégia adequada.

É por isso que avaliação vem antes da prescrição.


Incontinência urinária: um sinal clínico que não deve ser normalizado


Perder urina ao tossir, espirrar, correr, saltar ou realizar esforços não deve ser simplesmente considerado uma consequência normal do envelhecimento, da maternidade ou da prática esportiva.

Na incontinência urinária de esforço existe uma relação entre aumento da pressão intravesical, mecanismos de suporte uretral e capacidade do sistema de continência de responder à demanda.

E o treinamento dos músculos do assoalho pélvico possui evidências robustas nessa área.

Uma revisão Cochrane envolvendo 31 estudos e 1.817 mulheres concluiu que o treinamento dos músculos do assoalho pélvico pode aumentar a probabilidade de cura ou melhora da incontinência urinária, reduzir episódios de perda e melhorar a qualidade de vida.

Revisões posteriores continuam sustentando o TMAP como uma intervenção conservadora fundamental.

Portanto, se uma aluna relata perda urinária durante um exercício, nossa resposta não deveria ser simplesmente:

“Contraia mais o abdome.”

Precisamos investigar.


E mulheres que treinam muito? Elas têm necessariamente um assoalho pélvico mais forte?


Não.

Esse é outro mito importante.

Uma revisão sistemática publicada no International Urogynecology Journal analisou a relação entre exercício, morfologia e função do assoalho pélvico.

Os resultados mostraram que a relação entre exercício e função dos músculos do assoalho pélvico não é linear.

Mulheres submetidas a exercícios vigorosos e de alto impacto não apresentaram necessariamente melhor função muscular; alguns estudos encontraram inclusive menor contração voluntária máxima em determinados grupos.

Portanto:

ser fisicamente ativa não significa automaticamente possuir um assoalho pélvico funcional.

E ser forte abdominalmente também não significa ter boa função perineal.


7 pontos que o instrutor de Pilates deveria observar


1. Respiração

Observe se a aluna consegue respirar durante a execução ou utiliza apneia e estratégias excessivas de pressão.

2. Controle da pressão intra-abdominal

Exercícios mais exigentes precisam ser progressivamente adaptados à capacidade do indivíduo de administrar as demandas internas.

3. Capacidade de contração

Quando clinicamente indicado, a pessoa precisa conseguir reconhecer e executar corretamente a contração dos músculos do assoalho pélvico.

4. Capacidade de relaxamento

Tão importante quanto contrair é conseguir relaxar.

Isso é especialmente relevante diante de dor pélvica, sintomas sexuais, alterações evacuatórias e suspeita de aumento de tensão muscular.

5. Coordenação

O assoalho pélvico precisa responder de acordo com a tarefa, e não permanecer em contração máxima durante toda a sessão.

6. Sintomas durante o exercício

Pergunte sobre:

  • perda urinária;

  • sensação de peso vaginal;

  • urgência;

  • dor pélvica;

  • desconforto;

  • dificuldade evacuatória;

  • sintomas durante ou após determinados exercícios.

7. Necessidade de encaminhamento

O instrutor precisa reconhecer seus limites profissionais.

Quando existem sintomas de disfunção do assoalho pélvico, a avaliação específica por fisioterapeuta especializado em saúde pélvica pode ser necessária.


Pilates pode ser usado na reabilitação do assoalho pélvico?


Pode fazer parte de uma estratégia de reabilitação, especialmente quando utilizado para integrar respiração, controle motor, força global, mobilidade, coordenação e função.

Mas precisamos evitar a afirmação de que qualquer aula de Pilates seja, por si só, um tratamento específico para disfunções do assoalho pélvico.

Essa distinção é essencial.

Uma coisa é realizar Pilates.

Outra é utilizar o repertório do Pilates dentro de uma prescrição individualizada, baseada em avaliação e integrada ao treinamento específico do assoalho pélvico quando necessário.

É justamente aí que entra o raciocínio clínico.


O erro está em pensar apenas em “contrair o períneo”


Quando entendemos o assoalho pélvico apenas como um músculo que deve ser fortalecido, perdemos boa parte da complexidade do sistema.

Precisamos observar:

força + endurance + coordenação + relaxamento + respiração + pressão intra-abdominal + controle do tronco + demanda funcional.

E essa visão conversa diretamente com um Pilates mais contemporâneo.

Não devemos ensinar o corpo a permanecer rígido.

Precisamos ensinar o corpo a produzir a quantidade adequada de tensão para cada tarefa e, depois, ser capaz de reduzi-la novamente.


Conclusão


O assoalho pélvico não funciona isoladamente.

Ele participa de um sistema integrado envolvendo diafragma respiratório, parede abdominal, coluna, pelve, quadril e mecanismos de controle da pressão intra-abdominal.

O Pilates pode ser uma ferramenta extremamente interessante para trabalhar essa integração.

Entretanto, as evidências científicas disponíveis não sustentam a ideia de que o Pilates convencional, isoladamente, seja suficiente para fortalecer os músculos do assoalho pélvico ou tratar todas as suas disfunções.

O treinamento específico dos músculos do assoalho pélvico continua tendo papel fundamental, especialmente na incontinência urinária.

Portanto, para nós, profissionais do movimento, a pergunta não deveria ser:

“Qual exercício de Pilates fortalece o assoalho pélvico?”

A pergunta deveria ser:

“Como esse assoalho pélvico está respondendo à respiração, à pressão, à carga e ao movimento que estou propondo?”

Quando começamos a fazer essa pergunta, deixamos de ser apenas aplicadores de exercícios.

Começamos a desenvolver raciocínio clínico dentro do Pilates.


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