Síndrome da Dor Trocantérica e Pilates: o que o instrutor precisa saber para prescrever melhor
Por Janaína Cintas

Seu aluno sente dor na lateral do quadril. Você pensa imediatamente em bursite?
Essa pode ser uma das primeiras armadilhas no atendimento de um aluno com Síndrome da Dor Trocantérica (SDT).
Durante muito tempo, a dor lateral do quadril foi frequentemente explicada como uma “bursite trocantérica”. Hoje, entretanto, sabemos que a Síndrome da Dor Trocantérica é uma condição mais complexa, frequentemente relacionada às estruturas glúteas, especialmente aos tendões dos músculos glúteo médio e mínimo, além de possíveis alterações da bursa e dos tecidos adjacentes.
Uma revisão publicada em 2026 reforça essa mudança de entendimento: a SDT é atualmente compreendida principalmente como uma condição relacionada à tendinopatia ou lesão dos tendões glúteos, e não simplesmente como uma inflamação da bursa trocantérica.
E aqui começa uma reflexão importante para quem trabalha com Pilates Clínico:
Se a compreensão da patologia mudou, a maneira de prescrever exercícios também precisa mudar.
O que é a Síndrome da Dor Trocantérica?
A Síndrome da Dor Trocantérica é caracterizada principalmente por dor na região lateral do quadril, podendo irradiar pela face lateral da coxa.
É uma condição relativamente comum e particularmente frequente em mulheres de meia-idade e mais velhas. Dados recentes estimam que a condição possa afetar aproximadamente 17,6% dos adultos entre 50 e 79 anos, com maior ocorrência entre mulheres.
Mas existe algo ainda mais importante para o instrutor:
a dor lateral do quadril não significa necessariamente que o problema esteja restrito ao ponto onde o aluno sente dor.
O aluno pode apresentar alterações na capacidade de produzir força, no controle do membro inferior, na marcha e na tolerância à carga.
Uma revisão sistemática encontrou, em pessoas com SDT, menor força dos abdutores do quadril, alterações na atividade muscular e mudanças em parâmetros da marcha, como redução do comprimento do passo e da velocidade. A qualidade geral dessas evidências, entretanto, foi considerada baixa, o que reforça a necessidade de avaliação individualizada.
O primeiro erro: escolher o exercício antes de avaliar
Imagine que sua aluna chega para a aula e diz:
“Estou com uma dor muito forte aqui na lateral do quadril.”
Você identifica que ela tem um diagnóstico de Síndrome da Dor Trocantérica.
E então pensa:
“Preciso fortalecer o glúteo médio.”
Mas será que essa deve ser a primeira decisão?
Talvez não.
O raciocínio clínico começa antes do exercício.
Precisamos compreender:
Qual é a intensidade da dor?
Quando ela aparece?
A dor acontece durante a caminhada?
Piora ao subir escadas?
Piora ao deitar sobre o lado afetado?
Como está a tolerância à carga?
Como está o controle do membro inferior?
Como estão os movimentos do quadril?
Como o aluno realiza tarefas funcionais?
Existe medo de movimentar?
Qual é a capacidade atual de força?
Como ele responde ao exercício?
Perceba a diferença.
Não começamos com “qual exercício?”.
Começamos com:
“O que esse aluno precisa?”
Esse é o raciocínio clínico.
Nem toda dor lateral do quadril é igual
Outro ponto fundamental é compreender que a SDT faz parte de um diagnóstico diferencial amplo.
Dor lateral do quadril pode coexistir ou ser confundida com outras condições musculoesqueléticas.
Por isso, o instrutor de Pilates deve conhecer os sinais clínicos da condição, mas também reconhecer os limites da sua atuação e saber quando é necessário encaminhar o aluno para avaliação médica ou fisioterapêutica.
A literatura recente mostra justamente que nenhum teste clínico isolado deve ser interpretado de forma simplista.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy em 2024 analisou seis estudos, 15 testes e 272 participantes. Os autores encontraram que a combinação sequencial de testes pode aumentar significativamente a probabilidade diagnóstica.
Por exemplo, em pessoas com dor lateral do quadril, a combinação de palpação do tendão glúteo e teste de abdução resistida pode alterar substancialmente a probabilidade de SDT.
Isso nos ensina algo importante:
diagnóstico clínico não deve ser reduzido a um único sinal.
E prescrição de exercício também não.
E onde entra o Pilates?
Aqui está uma questão que considero essencial.
Não devemos dizer que:
“Pilates cura a Síndrome da Dor Trocantérica.”
A ciência disponível não permite uma afirmação tão ampla.
Por outro lado, existe evidência consistente de que exercícios fazem parte da abordagem conservadora da SDT, especialmente quando associados à educação e ao manejo adequado da carga.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 concluiu que existe suporte para recomendar exercícios como tratamento de primeira linha para pessoas diagnosticadas clinicamente com SDT. Em comparação com infiltração de corticosteroide, o exercício apresentou melhores resultados para a percepção global de melhora em longo prazo.
Mais recentemente, uma revisão sistemática publicada em 2025 encontrou evidência de força moderada para a combinação de exercício e educação, com efeito de magnitude moderada sobre dor e função no curto prazo.
E uma meta-análise publicada em 2024, especificamente sobre intervenções baseadas em exercícios para tendinopatia glútea, avaliou dor, função e qualidade de vida e encontrou evidências favoráveis ao exercício, embora os autores também ressaltem limitações da quantidade e qualidade dos estudos disponíveis.
Portanto, temos uma mensagem importante para o instrutor:
o exercício é relevante, mas a prescrição precisa ser individualizada.
Não é simplesmente “fortalecer o glúteo”
Essa é uma das maiores diferenças entre conhecer exercícios e dominar raciocínio clínico.
Se você recebe uma aluna com SDT e simplesmente pensa:
“Vou fortalecer glúteo médio.”
Você pode estar simplificando demais o problema.
O fortalecimento pode ser importante.
Mas precisamos perguntar:
Quanto de carga ela tolera?
Qual exercício produz uma resposta adequada?
Qual amplitude é apropriada?
Qual posição aumenta ou reduz os sintomas?
Como está o controle do membro inferior?
Como ela responde à carga naquele dia?
Como vou progredir?
A própria literatura sobre SDT mostra que a educação e o exercício são componentes importantes, mas não existe uma receita única aplicável a todos os pacientes.
Cuidado com a compressão do tendão
Esse é um conceito que merece muita atenção no Pilates Clínico.
O tendão glúteo pode ser submetido a diferentes níveis de carga e compressão dependendo da posição do quadril.
Por isso, alguns movimentos que parecem simples ou “terapêuticos” podem não ser adequados para uma pessoa que apresenta alta irritabilidade.
Um exemplo clássico é o decúbito lateral sobre o lado doloroso.
Se a aluna relata piora importante da dor ao dormir sobre esse lado, simplesmente colocá-la nessa posição para executar uma série de exercícios pode não ser a melhor escolha naquele momento.
Da mesma forma, exercícios que levam o quadril repetidamente a determinadas amplitudes ou posições precisam ser analisados individualmente.
O exercício não é bom ou ruim isoladamente.
Ele precisa ser adequado para aquela pessoa, naquele momento, com aquela dose.
E o Pilates pode ser uma excelente ferramenta
É aqui que o raciocínio clínico encontra o método Pilates.
O Pilates oferece diferentes possibilidades para trabalhar:
força;
resistência muscular;
controle motor;
estabilidade;
equilíbrio;
coordenação;
mobilidade;
consciência corporal;
capacidade funcional.
E os aparelhos permitem modular a carga de acordo com a capacidade do aluno.
No Reformer, Cadillac, Chair ou Mat, podemos modificar:
alavanca + amplitude + resistência + posição + velocidade + volume + complexidade.
Mas existe uma regra:
O aparelho não prescreve o exercício. O objetivo clínico prescreve o exercício.
Essa mudança de pensamento é fundamental.
Como pensar uma sessão de Pilates para esse aluno?
Em vez de criar uma “sequência para SDT”, pense em uma progressão.
1. Controle dos sintomas
Primeiro, precisamos compreender a irritabilidade do quadro.
O exercício precisa ser tolerável e não deve ser escolhido simplesmente porque está no repertório tradicional do Pilates.
2. Recuperação da capacidade de produzir força
À medida que o aluno tolera melhor a carga, podemos trabalhar progressivamente a musculatura do quadril e os padrões de movimento necessários para suas atividades.
3. Controle do membro inferior
Observe a relação entre:
pé → tornozelo → joelho → quadril → pelve → tronco.
Não para assumir que uma alteração em um segmento seja necessariamente a causa da dor, mas para compreender como o indivíduo organiza o movimento.
4. Exercícios funcionais
O objetivo não é deixar o aluno excelente em fazer exercícios de Pilates.
O objetivo é permitir que ele seja mais capaz de viver.
Subir escadas.
Caminhar.
Levantar-se de uma cadeira.
Entrar e sair do carro.
Fazer compras.
Praticar atividade física.
Dormir melhor.
Voltar às atividades que deixou de realizar.
É aí que o Pilates ganha significado clínico.
Qualidade de vida deve ser um dos nossos principais desfechos
Às vezes, ficamos tão concentrados em amplitude de movimento, força ou execução perfeita que esquecemos a pergunta mais importante:
“A vida dessa pessoa melhorou?”
A Síndrome da Dor Trocantérica pode comprometer atividades cotidianas e qualidade de vida. A literatura destaca justamente o impacto funcional que essa condição pode produzir.
Por isso, não basta observar se a aluna consegue fazer um exercício melhor.
Precisamos acompanhar se ela está:
caminhando mais;
sentindo menos dor nas atividades;
dormindo melhor;
tolerando mais tempo em pé;
subindo escadas com maior segurança;
retornando ao exercício;
retomando atividades sociais;
sentindo-se mais confiante para se movimentar.
Esse é o verdadeiro resultado clínico.
E onde está o diferencial do instrutor?
Está justamente no raciocínio.
Porque duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem receber exercícios completamente diferentes.
Uma pode precisar começar com movimentos de baixa demanda e progressão gradual.
Outra pode tolerar exercícios mais desafiadores.
Uma pode ter grande déficit de força.
Outra pode ter força relativamente preservada, mas baixa tolerância à carga.
Uma pode ter medo de movimentar.
Outra pode estar pronta para retornar ao esporte.
O diagnóstico é uma informação importante.
Mas ele não é o aluno inteiro.
Pilates Clínico não é uma lista de exercícios para cada patologia
Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes para quem trabalha com Pilates.
Você pode decorar:
“10 exercícios para dor no quadril.”
“5 exercícios para glúteo médio.”
“8 exercícios para tendinopatia.”
Mas isso não garante uma boa prescrição.
O profissional que domina o raciocínio clínico faz perguntas.
Por quê?
Para quê?
Quanto?
Quando?
Como?
O que mudou depois do exercício?
É essa capacidade de tomar decisões que permite adaptar o Pilates para diferentes pessoas e diferentes momentos clínicos.
O exercício é uma ferramenta. O raciocínio é o que direciona a ferramenta.
A Síndrome da Dor Trocantérica é um excelente exemplo de como o Pilates Clínico exige muito mais do que conhecer exercícios.
A ciência atual aponta para a importância do exercício e da educação no manejo da condição, mas também mostra que ainda existem lacunas importantes na literatura e que diferentes pacientes apresentam diferentes características clínicas.
Portanto, não precisamos transformar a ciência em uma receita.
Precisamos fazer o contrário:
usar a ciência para melhorar nossas decisões.
O instrutor que domina o raciocínio clínico consegue olhar para uma aluna com dor lateral do quadril e não enxergar apenas “um diagnóstico”.
Ele enxerga:
uma pessoa, uma história, uma capacidade funcional, uma limitação, um objetivo e uma oportunidade de recuperar movimento.
E talvez esse seja o verdadeiro propósito do Pilates Clínico:
não ensinar o aluno a fazer mais exercícios, mas ajudá-lo a recuperar a capacidade de fazer mais coisas na vida.
Conhecer exercícios amplia seu repertório.Dominar o raciocínio clínico transforma a maneira como você prescreve cada exercício.
Referências científicas
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