Pubalgia no Futebol: como tratar com Cadeias Musculares, Pilates e evidências científicas
- Janaína Cintas
- 25 de jun.
- 10 min de leitura
Por Janaína Cintas

Introdução
Em época de Copa do Mundo, é comum falarmos sobre gols, velocidade, força, preparo físico e desempenho. Mas, por trás da performance de um jogador de futebol, existe uma mecânica corporal extremamente exigida. Entre as lesões que mais preocupam atletas, fisioterapeutas e preparadores físicos, a pubalgia no futebol ocupa um lugar especial.
A pubalgia, também chamada atualmente de dor inguinal relacionada ao esporte, pode gerar dor na região do púbis, virilha, abdômen inferior, adutores e quadril. Em muitos casos, torna-se incapacitante, prejudicando o chute, a corrida, a mudança de direção e até atividades simples do dia a dia.
No artigo original de 2017, já discutíamos que a pubalgia era frequente em jogadores de futebol e que sua origem não deveria ser compreendida apenas como uma fraqueza abdominal ou uma lesão isolada dos adutores. Hoje, com o avanço da literatura científica, essa visão se fortaleceu ainda mais.
A pubalgia precisa ser entendida como uma alteração complexa de forças que envolve pelve, quadril, coluna lombar, abdômen, diafragma, assoalho pélvico, fáscias e Cadeias Musculares.
O que é pubalgia?
Pubalgia é o termo popularmente utilizado para descrever dor na região púbica e inguinal, muito comum em esportes que exigem aceleração, desaceleração, mudanças rápidas de direção, chutes e rotações do tronco.
Atualmente, a literatura internacional prefere o termo Groin Pain in Athletes, ou seja, dor inguinal em atletas. O Consenso de Doha classificou essa dor em entidades clínicas como dor relacionada aos adutores, iliopsoas, região inguinal e região púbica, além das dores relacionadas ao quadril.
Isso é importante porque nem toda dor na virilha tem a mesma causa. Um atleta pode apresentar dor por sobrecarga dos adutores, alteração do iliopsoas, disfunção da parede abdominal, lesão da sínfise púbica, impacto femoroacetabular, hérnia esportiva ou compensações biomecânicas vindas de outras regiões.
Por isso, tratar pubalgia apenas com gelo, repouso e fortalecimento abdominal costuma ser insuficiente.
Por que a pubalgia é tão comum no futebol?
O futebol é um dos esportes que mais exige da região pélvica. O jogador precisa correr, frear, girar, saltar, chutar, driblar, proteger a bola, receber contato físico e mudar de direção em alta velocidade.
A pubalgia no futebol costuma aparecer por uma soma de fatores:
chutes repetitivos;
mudanças bruscas de direção;
acelerações e desacelerações;
contato físico;
assimetrias entre perna de apoio e perna de chute;
excesso de tensão nos adutores;
restrição de mobilidade do quadril;
tensão de isquiotibiais;
desequilíbrio entre abdômen, pelve e membros inferiores.
No artigo original, já era descrito que o púbis recebe forças descendentes vindas do reto abdominal, oblíquos e transverso, ao mesmo tempo em que recebe forças ascendentes vindas dos adutores. Essa relação continua sendo essencial para entender a pubalgia.
A sínfise púbica funciona como uma região de encontro de forças. Quando essas forças estão equilibradas, ela absorve carga. Quando estão desequilibradas, ela sofre.
A pubalgia não começa necessariamente no púbis
Um dos maiores erros no tratamento da pubalgia é olhar apenas para o local da dor.
A dor aparece no púbis, mas o problema pode ter começado muito antes, em uma alteração de mobilidade do quadril, uma restrição dos isquiotibiais, uma pelve mal posicionada, uma tensão do iliopsoas, uma rigidez torácica ou até uma respiração ineficiente.
Sob a visão das Cadeias Musculares, a pubalgia é uma consequência de tensões que se distribuem pelo corpo. O púbis pode ser apenas a região que não conseguiu mais compensar.
No jogador de futebol, isso é ainda mais evidente. Ele trabalha frequentemente em semiflexão de joelhos para abaixar o centro de gravidade e ganhar estabilidade. Essa postura exige muito dos quadríceps, isquiotibiais, glúteos, adutores e tronco.
Com o tempo, os isquiotibiais podem perder mobilidade, a pelve pode entrar em compensação, os adutores podem trabalhar fora da sua melhor relação comprimento-tensão e o abdômen pode ser solicitado em excesso para gerar potência ao chute.
O resultado é uma sobrecarga progressiva no sistema reto-adutor.
Cadeias Musculares e pubalgia no futebol
A análise por Cadeias Musculares permite enxergar a pubalgia de forma global.
No futebol, o chute não é um movimento isolado da perna. Ele envolve apoio do pé no solo, estabilidade da pelve, rotação do tronco, ação dos abdominais, mobilidade do quadril, extensão do joelho e controle da coluna.
Quando há restrição em uma região, outra precisa compensar.
Entre as cadeias mais importantes na pubalgia, podemos destacar:
Cadeia anterior
Envolve músculos como reto abdominal, iliopsoas, adutores e estruturas fasciais anteriores. Quando está excessivamente tensa, pode tracionar a pelve e aumentar a carga sobre a sínfise púbica.
Cadeia posterior
Inclui isquiotibiais, glúteos, paravertebrais e fáscia toracolombar. No futebol, isquiotibiais rígidos podem limitar a amplitude do chute e obrigar o atleta a compensar com pelve e lombar.
Cadeias cruzadas
São fundamentais para movimentos de rotação, como o chute, o drible e a mudança de direção. Um déficit nas cadeias cruzadas pode gerar sobrecarga assimétrica na pelve.
Cadeia respiratória
O diafragma participa diretamente da pressão intra-abdominal e da estabilidade do tronco. Uma respiração bloqueada ou excessivamente apical pode alterar o funcionamento do abdômen, do assoalho pélvico e da pelve.
Portanto, a pubalgia no futebol não é apenas uma dor na virilha. É uma falha de distribuição de forças.
O papel da fáscia na pubalgia
A fáscia conecta estruturas distantes e participa da transmissão de força pelo corpo. Ela envolve músculos, tendões, ligamentos, vísceras e articulações.
Na região da pubalgia, devemos considerar a continuidade entre:
fáscia abdominal;
bainha do reto abdominal;
fáscia toracolombar;
fáscia dos adutores;
diafragma;
assoalho pélvico;
iliopsoas;
quadril.
A fáscia não é apenas um tecido de preenchimento. Ela transmite tensão, informa o sistema nervoso e participa da propriocepção. Por isso, um tratamento eficiente deve considerar mobilidade, elasticidade, respiração, controle motor e integração global.
A falsa ideia de que todo jogador com pubalgia tem abdômen fraco
Durante muito tempo, a pubalgia foi explicada pela famosa tríade:
abdômen fraco;
hiperlordose;
adutores fortes.
Mas será que jogadores de futebol profissionais realmente têm abdômen fraco?
Na prática, muitos atletas apresentam abdômen extremamente treinado. O problema nem sempre é falta de força. Muitas vezes é excesso de rigidez, excesso de tensão ou má coordenação entre abdômen, diafragma, pelve e membros inferiores.
A ciência atual também questiona a ideia simplista de “core forte” como solução universal. O controle motor eficiente depende de músculos trabalhando no momento certo, com a intensidade certa e sem gerar rigidez excessiva.
Para a pubalgia, isso é essencial. Um abdômen rígido demais pode aumentar a pressão e a tensão sobre a pelve. Um abdômen fraco demais pode não sustentar as demandas do esporte. O segredo está na coordenação.
Cristiano Ronaldo, futebol e longevidade esportiva
Cristiano Ronaldo é um exemplo mundial de longevidade esportiva. Mesmo após os 40 anos, segue sendo citado como referência de disciplina, recuperação, treinamento físico e cuidado com o corpo.
É comum que conteúdos sobre Pilates associem Cristiano Ronaldo ao método, especialmente pela relação entre Pilates, mobilidade, controle corporal, força profunda e prevenção de lesões. Porém, é importante sermos cientificamente responsáveis: não há necessidade de afirmar que ele usou Pilates para tratar pubalgia.
O que podemos aprender com atletas como Cristiano Ronaldo é a importância do treinamento complementar. No futebol moderno, não basta chutar bem. O atleta precisa cuidar da mobilidade, da força, da recuperação, da respiração, do sono, da prevenção de lesões e da eficiência do movimento.
E é exatamente nesse ponto que o Pilates pode ser uma ferramenta valiosa para jogadores de futebol.
Como o Pilates pode ajudar no tratamento da pubalgia no futebol?
O Pilates Clínico pode ser uma excelente estratégia no tratamento da pubalgia, desde que seja aplicado com raciocínio biomecânico e não apenas como uma sequência aleatória de exercícios.
O objetivo não é simplesmente fortalecer o abdômen. O objetivo é reorganizar o corpo para que as forças sejam melhor distribuídas.
O Pilates pode ajudar em:
melhora da mobilidade do quadril;
controle da pelve;
fortalecimento funcional dos adutores;
melhora da estabilidade dinâmica;
organização da respiração;
ativação eficiente do Power House;
redução de compensações lombares;
melhora da consciência corporal;
retorno gradual ao gesto esportivo.
A literatura científica mostra que programas de fortalecimento dos adutores podem reduzir problemas de virilha em jogadores de futebol. Um estudo com futebolistas demonstrou que um programa simples de fortalecimento dos adutores reduziu a prevalência e o risco de problemas na região inguinal.
Mas, na prática clínica, o fortalecimento precisa estar dentro de um raciocínio maior. Fortalecer um músculo encurtado, dolorido ou mal posicionado pode piorar o quadro.
Por isso, antes de fortalecer, precisamos avaliar.
Avaliação da pubalgia no futebol
A avaliação deve observar o atleta como um todo.
Alguns pontos importantes:
1. Dor
Onde dói? No púbis? Nos adutores? Na virilha? No abdômen inferior? No quadril? A dor aparece no chute, na corrida, na mudança de direção ou após o treino?
2. Mobilidade do quadril
Restrições de rotação interna, flexão ou extensão do quadril podem aumentar a sobrecarga púbica.
3. Isquiotibiais
Isquiotibiais encurtados podem limitar a mecânica do chute e gerar compensações pélvicas.
4. Iliopsoas
O psoas pode atuar em relação com cadeias de flexão ou extensão, influenciando diretamente a pelve e a lombar.
5. Adutores
Devemos avaliar força, dor, mobilidade, simetria e capacidade de sustentar carga.
6. Respiração
O padrão respiratório influencia o diafragma, a pressão intra-abdominal e o assoalho pélvico.
7. Gesto esportivo
É essencial observar corrida, apoio unipodal, desaceleração, giro e chute.
No artigo original, já eram sugeridos testes como flexão em pé, flexão deitado, teste do psoas e teste dos adutores. Essa avaliação continua útil, mas pode ser ampliada com testes funcionais e critérios de retorno ao esporte.
Tratamento com Pilates e Cadeias Musculares
O tratamento deve ser dividido em fases.
Fase 1: reduzir dor e proteger a região
Nesta fase, o objetivo é diminuir a irritabilidade dos tecidos. Devemos evitar exercícios que reproduzam dor intensa, principalmente abduções forçadas, pranchas excessivas, abdominais agressivos e movimentos de rotação sem controle.
Podem ser utilizados:
respiração diafragmática;
mobilidade torácica;
mobilidade suave de quadril;
relaxamento de adutores;
liberação miofascial;
exercícios leves de controle pélvico.
Fase 2: recuperar mobilidade
Aqui começamos a devolver movimento às regiões que estavam restringindo a pelve.
Foco em:
isquiotibiais;
iliopsoas;
quadril;
coluna torácica;
cadeia posterior;
cadeia anterior.
No Pilates, exercícios no Reformer, Cadillac e solo podem ser adaptados para trabalhar mobilidade sem sobrecarregar o púbis.
Fase 3: reorganizar o centro
O Power House deve ser trabalhado como um sistema integrado, não como uma contração rígida.
Devemos buscar:
abdômen funcional;
diafragma livre;
assoalho pélvico responsivo;
pelve móvel e estável;
coluna capaz de distribuir forças.
Estabilidade não é rigidez. Um corpo eficiente precisa estabilizar e se mover.
Fase 4: fortalecer de forma progressiva
Depois da melhora da dor e da mobilidade, entra o fortalecimento.
Podemos incluir:
ponte;
footwork;
side splits adaptado;
exercícios em apoio unipodal;
controle excêntrico dos adutores;
agachamentos com alinhamento;
exercícios de rotação controlada;
trabalho de glúteos e cadeia lateral.
A progressão deve respeitar dor, fadiga e qualidade do movimento.
Fase 5: retornar ao futebol
O retorno ao esporte precisa ser gradual.
O atleta deve conseguir:
correr sem dor;
mudar de direção sem dor;
realizar apoio unipodal com controle;
chutar progressivamente;
acelerar e desacelerar;
sustentar carga de treino;
não apresentar piora no dia seguinte.
A literatura atual reforça que a reabilitação da dor inguinal deve considerar carga, força, mobilidade e critérios funcionais de retorno.
Exercícios de Pilates que podem ser úteis
A escolha dos exercícios depende da avaliação individual, mas alguns podem ser interessantes quando bem adaptados:
Ponte;
Footwork no Reformer;
Leg Circles;
Mermaid;
Side Splits com baixa carga;
Eve’s Lunge;
Tower com molas leves;
exercícios de mobilidade torácica;
exercícios de estabilidade em apoio unipodal;
trabalho respiratório em decúbito dorsal, sentado e ajoelhado.
Importante: o exercício não é bom ou ruim sozinho. Ele depende do momento clínico, da execução e do objetivo.
Um Side Splits pode ser excelente em uma fase avançada, mas péssimo em fase aguda. Uma ponte pode ser ótima para reorganizar pelve e glúteos, mas precisa ser executada sem compensação lombar.
Prevenção da pubalgia no futebol
A melhor forma de tratar pubalgia é prevenir.
Devemos observar sinais precoces como:
dor leve após treinos;
sensação de peso na virilha;
perda de potência no chute;
rigidez de adutores;
dor ao tossir ou espirrar;
dor em mudanças de direção;
encurtamento progressivo de isquiotibiais;
redução de mobilidade do quadril.
A prevenção deve incluir fortalecimento progressivo dos adutores, mobilidade do quadril, controle de carga, recuperação adequada e trabalho global das Cadeias Musculares.
Uma revisão sistemática recente apontou fatores de risco como lesão prévia na virilha, redução da força excêntrica de adução do quadril, limitação da rotação do quadril e condicionamento inadequado na pré-temporada.
Isso confirma o que a prática clínica já mostra: pubalgia não é apenas um problema local.
O que mudou de 2017 para hoje?
Em 2017, ainda era comum falar em pubalgia como uma lesão centrada no púbis. Hoje, a ciência e a prática clínica caminham para uma visão mais ampla.
Antes, falávamos mais em sínfise púbica. Hoje, falamos em dor inguinal relacionada ao esporte.
Antes, pensávamos mais em músculos isolados. Hoje, pensamos em integração entre cadeias musculares, fáscias, quadril, coluna, pelve e controle motor.
Antes, fortalecíamos o core de forma rígida. Hoje, entendemos que o centro precisa ser forte, mas também móvel, respiratório e adaptável.
Antes, o tratamento era muitas vezes local. Hoje, o tratamento precisa ser global.
Conclusão
A pubalgia no futebol é uma condição complexa, multifatorial e altamente limitante. Ela não deve ser tratada apenas como uma dor no púbis ou uma fraqueza dos adutores.
O jogador de futebol é um corpo em rotação, aceleração, contato, apoio unipodal e potência. Sua pelve recebe forças ascendentes dos membros inferiores e descendentes do tronco. Quando essas forças deixam de se organizar, a sínfise púbica sofre.
As Cadeias Musculares nos permitem compreender essas compensações. O Pilates Clínico nos oferece ferramentas para reorganizar o movimento, melhorar mobilidade, fortalecer com inteligência e devolver ao atleta a capacidade de se mover com eficiência.
Em tempos de Copa do Mundo, falar de pubalgia no futebol é falar de performance, prevenção e longevidade esportiva.
Cristiano Ronaldo nos lembra que o alto rendimento não depende apenas de talento. Depende de cuidado, disciplina, recuperação e inteligência corporal.
E é exatamente aí que o Pilates, quando bem aplicado, pode fazer uma enorme diferença.
Referências
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